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Sonhos, Espelhos e Outras Idéias Frágeis – Episódio #04: O Homem no Corredor e a Menina na Janela

30 de Abril de 2012

Ele caminhava descalço e nu por entre as paredes brancas, paralelas e infinitamente retilíneas do corredor, observando com alguma displicência as infinitas portas e janelas em ambos os lados. Era alto, com cabelos negros e curtos sobre uma face de meia idade, com olhos de um cinza profundo e pele branca como o algodão. A cada meia dúzia de passos, uma porta e uma janela se apresentavam perfeitamente alinhadas em cada parede. Cada porta, ele sabia, levava a um destino em um dos mundos, e em cada janela ele podia ver coisas que se passavam em diferentes e infinitos lugares. O batente de cada porta era idêntico ao de sua janela, mas não haviam dois pares exatamente iguais em nenhum dos intermináveis lados do corredor. O homem no corredor sabia daquilo, pois conhecia cada porta e cada janela como alguém que já vira todas muitas vezes.

As portas estavam todas fechadas, e o vidro de cada janela era perfeitamente espelhado, refletindo-se mútua e infinitamente na janela da parede oposta. Somente quando o homem passava por uma janela e olhava para seu reflexo o vidro se iluminava, revelando o destino correspondente à porta. Viu uma fábrica abrindo seus portões e despejando

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Só mais um pouco de paciência, pessoal

25 de Abril de 2012

Oi, pessoal. Eu sei, eu sei, o conto tinha que ter saído no sábado passado e já estamos na quarta-feira, e sim, você tem razão, se estou escrevendo isso aqui é porque também não sai hoje. Mas juro que sai entre amanhã e sexta-feira, e já peço algumas desculpas à meia dúzia de adoráveis desocupados que escreveram sentindo falta do capítulo 4. A narrativa de Fausto começou a se complicar na minha cabeça, e passei a lidar com elementos demais para conseguir produzir um capítulo de 6 páginas por semana, mas vocês já me conhecem tem algum tempinho e com certeza já sabiam que essa coisa de publicar um capítulo todo sábado ia durar tanto quanto aquela antiga idéia de postar todo dia.

Isso tudo para dizer que estou trabalhando nessa história com o maior afeto e dedicação, e ela continuará saindo aqui algumas vezes por mês, embora eu não saiba dizer quantas. E, antes de voltar pro Word, queria aproveitar o ensejo para agradecer a todos que têm lido, que já são mais do que eu esperava, e ainda mais aos que têm mandado e-mails e comentários em cada capítulo. Obrigado mesmo, fico realmente feliz que estejam gostando, porque ainda tem muita coisa para acontecer.

Peixada do Capa

19 de Abril de 2012

Bom dia. Coisa interessante essa de cozinhar. De um lado pode ser um tormento quando vira aquela obrigação de enfiar comida pra dentro do bucho para não morrer de fome, e nem matar as crianças, e do outro aquilo que vai além. É uma obra de arte que se come, que tem conceito, tem porquês, e precisa de alguma sensibilidade. Se for só pra não morrer de fome, arroz se faz com água e sal. Se for para ter prazer em comer, até o tempo que se refoga o alho e a cebola batidinha faz diferença.
Então vamos simplificar dizendo que em algumas vezes, talvez a maioria, a gente se limita mesmo só a se alimentar, mas em outros dias especiais ou até mesmo amanhã, quando se comemora o primeiro domingo de junho de 2009, fazer um prato especial para DEGUSTAR é uma ótima pedida. Observe que quem come com muita fome não degusta prato algum. Melhor ir comer no bandejão do governo que lá se paga só 1 real. Quem come por prazer e pelo sabor deve ir à mesa sem fome. Não custa nada comer umas besteirinhas até a hora de servir. E beber muito também tira o paladar. Então recomendo nem beber, mas se a manguaça for mesmo indispensável, ao menos beba o mínimo. Quem gosta de sabores deve passar a manhã inteira bebendo água mineral.

Bem… Feito o prólogo, vamos fazer compras. Essa receita é Ler Mais…

5 Livros #01

18 de Abril de 2012

Bom dia. Hoje coloco em prática uma idéia que tive semana passada para colocar mais conteúdo nas sessões Literatura e Listas deste blog, que andam meio magrinhas. A idéia é muito simples: Eu leio muito e não tenho disposição nem disponibilidade para escrever uma resenha crítica de cada livro que termino, mas sinto mesmo muita falta de dividir as coisas legais que encontro pelo caminho, então a partir de hoje e a cada cinco livros que terminar, escreverei uma listinha com comentários pontuais acerca da leitura. Naturalmente, como não desejo levar meus leitores ao estado de coma induzido, tentarei me focar exclusivamente em livros de ficção, contos e romances, deixando a literatura teórica do trabalho de fora disso. Também buscarei sempre fazer referência a livros em português ou traduzidos para o português, aindda que eventualmente como hoje alguns livros ainda sem tradução possam aparecer.

Esse foi um começo de ano cheio de boas leituras. Conheci pelo menos dois ótimos

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Sonhos, Espelhos e Outras Idéias Frágeis – Episódio #03: O Mundo de Lá

16 de Abril de 2012

Quando Fausto elegeu Woodsville como melhor lugar no mundo para se esconder da mídia que, na época, pagaria quantias obscenas pela chance de esfolar mais um pouco de seu couro, a escolha parecia perfeita. De fato, era. Fausto podia imaginar a horda de chacais e hienas esfomeadas em seus jornais e agências de notícias olhando para mapas e fazendo suposições. Se tivesse que procurar por si mesmo, Fausto certamente tentaria a Europa, ou talvez algum canto lusófono da África. Em última instância, procuraria por si mesmo no Japão ou no Brasil, a terra da sua infância que desde então nunca mais visitara. Aquelas eram culturas que apreciava, lugares que havia gostado de conhecer, e principalmente ficavam longe de Vancouver, onde tudo havia dado errado há quatro anos. Eram todos, no entanto, escolhas óbvias, e não serviam.
Woodsville era uma cidade pequena, mas não notavelmente pequena, no Condado de Cape Breton, na Ilha de Cape Breton que é a 18ª maior do Canadá, onde menos de 150 mil pessoas viviam da pesca, da madeira e do carvão, e também de algum turismo, ainda que Fausto não conseguisse se imaginar pagando para passar nem um final de semana por ali. A ilha, ele sabia, tinha seus atrativos, mas estes se limitavam quase que totalmente às Ler Mais…

O Moralismo Religioso e o Aborto dos Anencéfalos

13 de Abril de 2012

Bom dia. Semana passada pincelei a questão do fanatismo religioso bem de leve e bem de longe, falando apenas sobre o aspecto dos Criacionistas, pessoas cuja fé em textos tidos como sagrados afirma que a Terra foi criada há 6 mil anos com suas formas de vida do jeito como se apresentam hoje, colocando a evolução das espécies por meios de seleção natural no campo das heresias. Como o assunto de hoje novamente encosta na questão do fanatismo religioso, vou me esforçar para pegar leve, vocês depois me digam se consegui.

Pois é, pessoal, aprovaram no STF a interrupção terapêutica de gestações de fetos anencefálicos. É tanto tucanês que parece até coisa do PSDB, né? Vou resumir. Anencefalia é uma patologia que ocorre entre o 23º e 26º dias da gestação, caracterizada pela formação incompleta do tubo neural, cuja ponta cefálica, a cabeça, não se forma completamente, deixando de produzir a maior parte do cérebro, do crânio e do couro cabeludo. O feto, assim, não possui a preciosa região do córtex encefálico responsável por todo o processo cognitivo e representativo que chamamos de “pensar”. O National Institute of Neurological Disorders and Stroke (NINDS), instituto norte-americano responsável pelo estudo da doença nos EUA, descreve a apresentação de tal condição da seguinte forma (tradução minha): “um bebê nascido com anencefalia é normalmente Ler Mais…

Sonhos, Espelhos e Outras Idéias Frágeis – Episódio #02: Raven

7 de Abril de 2012

Levantou-se da cama e tropeçou até o banheiro sentindo o frio da noite e massageando as têmporas para afastar a dor. Não funcionou. Abriu o armário do espelho, pegando um vidro de comprimidos e jogando dois goela abaixo com um gole de água da pia. Lavou o rosto e fechou o armário, olhando-se no espelho. Não viu nada, e sentiu-se novamente aliviado por constatar enfim que havia mesmo acordado. Em seus sonhos, Fausto ainda podia ver, e neles raramente notava que não estava mais cego. Sentiu os comprimidos se dissolvendo no estômago, e pensou que seria bom comer alguma coisa. Abriu a geladeira apenas para tatear seu interior e constatar o retrato da desolação. Meia caixinha de margarina, meia cebola, meio pacote velho de bolacha recheada. Esfregando o corpo para espantar o frio, Fausto aumentou o nível do termostato ao lado da porta da cozinha e voltou para o quarto. Abriu a gaveta do criado-mudo e dela retirou uma caixinha de madeira. Colocou a caixinha sobre o colo e a abriu, retirando um por um, uma caixa de fósforos, um isqueiro, uma peça metálica Ler Mais…

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