Pai Contra Mãe – Machado de Assis

(De Relíquias da Casa Velha, publicado em 1906.)

 

A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.

 

O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.

 

Há meio século, os escravos fugiam com freqüência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando.

 

Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha promessa: “gratificar-se-á generosamente”, — ou “receberá uma boa gratificação”. Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o acoitasse.

 

Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.

 

Cândido Neves, — em família, Candinho, — é a pessoa a quem se liga a história de uma fuga, cedeu à pobreza, quando adquiriu o ofício de pegar escravos fugidos. Tinha um defeito grave esse homem, não agüentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade; é o que ele chamava caiporismo. Começou por querer aprender tipografia, mas viu cedo que era preciso algum tempo para compor bem, e ainda assim talvez não ganhasse o bastante; foi o que ele disse a si mesmo. O comércio chamou-lhe a atenção, era carreira boa. Com algum esforço entrou de caixeiro para um armarinho. A obrigação, porém, de atender e servir a todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas estava na rua por sua vontade. Fiel de cartório, contínuo de uma repartição anexa ao Ministério do Império, carteiro e outros empregos foram deixados pouco depois de obtidos.

 

Quando veio a paixão da moça Clara, não tinha ele mais que dívidas, ainda que poucas, porque morava com um primo, entalhador de ofício. Depois de várias tentativas para obter emprego, resolveu adotar o ofício do primo, de que aliás já tomara algumas lições. Não lhe custou apanhar outras, mas, querendo aprender depressa, aprendeu mal. Não fazia obras finas nem complicadas, apenas garras para sofás e relevos comuns para cadeiras. Queria ter em que trabalhar quando casasse, e o casamento não se demorou muito.

 

Contava trinta anos. Clara vinte e dois. Ela era órfã, morava com uma tia, Mônica, e cosia com ela. Não cosia tanto que não namorasse o seu pouco, mas os namorados apenas queriam matar o tempo; não tinham outro empenho. Passavam às tardes, olhavam muito para ela, ela para eles, até que a noite a fazia recolher para a costura. O que ela notava é que nenhum deles lhe deixava saudades nem lhe acendia desejos. Talvez nem soubesse o nome de muitos. Queria casar, naturalmente. Era, como lhe dizia a tia, um pescar de caniço, a ver se o peixe pegava, mas o peixe passava de longe; algum que parasse, era só para andar à roda da isca, mirá-la, cheirá-la, deixá-la e ir a outras.

 

O amor traz sobrescritos. Quando a moça viu Cândido Neves, sentiu que era este o possível marido, o marido verdadeiro e único. O encontro deu-se em um baile; tal foi — para lembrar o primeiro ofício do namorado, — tal foi a página inicial daquele livro, que tinha de sair mal composto e pior brochado. O casamento fez-se onze meses depois, e foi a mais bela festa das relações dos noivos. Amigas de Clara, menos por amizade que por inveja, tentaram arredá-la do passo que ia dar. Não negavam a gentileza do noivo, nem o amor que lhe tinha, nem ainda algumas virtudes; diziam que era dado em demasia a patuscadas.

 

— Pois ainda bem, replicava a noiva; ao menos, não caso com defunto.

 

— Não, defunto não; mas é que…

 

Não diziam o que era. Tia Mônica, depois do casamento, na casa pobre onde eles se foram abrigar, falou-lhes uma vez nos filhos possíveis. Eles queriam um, um só, embora viesse agravar a necessidade.

 

— Vocês, se tiverem um filho, morrem de fome, disse a tia à sobrinha.

 

— Nossa Senhora nos dará de comer, acudiu Clara.

 

Tia Mônica devia ter-lhes feito a advertência, ou ameaça, quando ele lhe foi pedir a mão da moça; mas também ela era amiga de patuscadas, e o casamento seria uma festa, como foi.

 

A alegria era comum aos três. O casal ria a propósito de tudo. Os mesmos nomes eram objeto de trocados, Clara, Neves, Cândido; não davam que comer, mas davam que rir, e o riso digeria-se sem esforço. Ela cosia agora mais, ele saía a empreitadas de uma coisa e outra; não tinha emprego certo.

 

Nem por isso abriam mão do filho. O filho é que, não sabendo daquele desejo específico, deixava-se estar escondido na eternidade. Um dia, porém, deu sinal de si a criança; varão ou fêmea, era o fruto abençoado que viria trazer ao casal a suspirada ventura. Tia Mônica ficou desorientada, Cândido e Clara riram dos seus sustos.

 

— Deus nos há de ajudar, titia, insistia a futura mãe.

 

A notícia correu de vizinha a vizinha. Não houve mais que espreitar a aurora do dia grande. A esposa trabalhava agora com mais vontade, e assim era preciso, uma vez que, além das costuras pagas, tinha de ir fazendo com retalhos o enxoval da criança. À força de pensar nela, vivia já com ela, media-lhe fraldas, cosia-lhe camisas. A porção era escassa, os intervalos longos. Tia Mônica ajudava, é certo, ainda que de má vontade.

 

— Vocês verão a triste vida, suspirava ela.

 

— Mas as outras crianças não nascem também? perguntou Clara.

 

— Nascem, e acham sempre alguma coisa certa que comer, ainda que pouco…

 

— Certa como?

 

— Certa, um emprego, um ofício, uma ocupação, mas em que é que o pai dessa infeliz criatura que aí vem gasta o tempo?

 

Cândido Neves, logo que soube daquela advertência, foi ter com a tia, não áspero, mas muito menos manso que de costume, e lhe perguntou se já algum dia deixara de comer.

 

— A senhora ainda não jejuou senão pela semana santa, e isso mesmo quando não quer jantar comigo. Nunca deixamos de ter o nosso bacalhau…

 

— Bem sei, mas somos três.

 

— Seremos quatro.

 

— Não é a mesma coisa.

 

— Que quer então que eu faça, além do que faço?

 

— Alguma coisa mais certa. Veja o marceneiro da esquina, o homem do armarinho, o tipógrafo que casou sábado, todos têm um emprego certo… Não fique zangado; não digo que você seja vadio, mas a ocupação que escolheu é vaga. Você passa semanas sem vintém.

 

— Sim, mas lá vem uma noite que compensa tudo, até de sobra. Deus não me abandona, e preto fugido sabe que comigo não brinca; quase nenhum resiste, muitos entregam-se logo.

 

Tinha glória nisto, falava da esperança como de capital seguro. Daí a pouco ria, e fazia rir à tia, que era naturalmente alegre, e previa uma patuscada no batizado.

 

Cândido Neves perdera já o ofício de entalhador, como abrira mão de outros muitos, melhores ou piores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe um encanto novo. Não obrigava a estar longas horas sentado. Só exigia força, olho vivo, paciência, coragem e um pedaço de corda. Cândido Neves lia os anúncios, copiava-os, metia-os no bolso e saía às pesquisas. Tinha boa memória. Fixados os sinais e os costumes de um escravo fugido, gastava pouco tempo em achá-lo, segurá-lo, amarrá-lo e levá-lo. A força era muita, a agilidade também. Mais de uma vez, a uma esquina, conversando de coisas remotas, via passar um escravo como os outros, e descobria logo que ia fugido, quem era, o nome, o dono, a casa deste e a gratificação; interrompia a conversa e ia atrás do vicioso. Não o apanhava logo, espreitava lugar azado, e de um salto tinha a gratificação nas mãos. Nem sempre saía sem sangue, as unhas e os dentes do outro trabalhavam, mas geralmente ele os vencia sem o menor arranhão.

 

Um dia os lucros entraram a escassear. Os escravos fugidos não vinham já, como dantes, meter-se nas mãos de Cândido Neves. Havia mãos novas e hábeis. Como o negócio crescesse, mais de um desempregado pegou em si e numa corda, foi aos jornais, copiou anúncios e deitou-se à caçada. No próprio bairro havia mais de um competidor. Quer dizer que as dívidas de Cândido Neves começaram de subir, sem aqueles pagamentos prontos ou quase prontos dos primeiros tempos. A vida fez-se difícil e dura. Comia-se fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava pelo aluguéis.

 

Clara não tinha sequer tempo de remendar a roupa ao marido, tanta era a necessidade de coser para fora. Tia Mônica ajudava a sobrinha, naturalmente. Quando ele chegava à tarde, via-se-lhe pela cara que não trazia vintém. Jantava e saía outra vez, à cata de algum fugido. Já lhe sucedia, ainda que raro, enganar-se de pessoa, e pegar em escravo fiel que ia a serviço de seu senhor; tal era a cegueira da necessidade. Certa vez capturou um preto livre; desfez-se em desculpas, mas recebeu grande soma de murros que lhe deram os parentes do homem.

 

— É o que lhe faltava! exclamou a tia Mônica, ao vê-lo entrar, e depois de ouvir narrar o equívoco e suas conseqüências. Deixe-se disso, Candinho; procure outra vida, outro emprego.

 

Cândido quisera efetivamente fazer outra coisa, não pela razão do conselho, mas por simples gosto de trocar de ofício; seria um modo de mudar de pele ou de pessoa. O pior é que não achava à mão negócio que aprendesse depressa.

 

A natureza ia andando, o feto crescia, até fazer-se pesado à mãe, antes de nascer. Chegou o oitavo mês, mês de angústias e necessidades, menos ainda que o nono, cuja narração dispenso também. Melhor é dizer somente os seus efeitos. Não podiam ser mais amargos.

 

— Não, tia Mônica! bradou Candinho, recusando um conselho que me custa escrever, quanto mais ao pai ouvi-lo. Isso nunca!

 

Foi na última semana do derradeiro mês que a tia Mônica deu ao casal o conselho de levar a criança que nascesse à Roda dos enjeitados. Em verdade, não podia haver palavra mais dura de tolerar a dois jovens pais que espreitavam a criança, para beijá-la, guardá-la, vê-la rir, crescer, engordar, pular… Enjeitar quê? enjeitar como? Candinho arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa de jantar. A mesa, que era velha e desconjuntada, esteve quase a se desfazer inteiramente. Clara interveio.

 

— Titia não fala por mal, Candinho.

 

— Por mal? replicou tia Mônica. Por mal ou por bem, seja o que for, digo que é o melhor que vocês podem fazer. Vocês devem tudo; a carne e o feijão vão faltando. Se não aparecer algum dinheiro, como é que a família há de aumentar? E depois, há tempo; mais tarde, quando o senhor tiver a vida mais segura, os filhos que vierem serão recebidos com o mesmo cuidado que este ou maior. Este será bem criado, sem lhe faltar nada. Pois então a Roda é alguma praia ou monturo? Lá não se mata ninguém, ninguém morre à toa, enquanto que aqui é certo morrer, se viver à míngua. Enfim…

 

Tia Mônica terminou a frase com um gesto de ombros, deu as costas e foi meter-se na alcova. Tinha já insinuado aquela solução, mas era a primeira vez que o fazia com tal franqueza e calor, — crueldade, se preferes. Clara estendeu a mão ao marido, como a amparar-lhe o ânimo; Cândido Neves fez uma careta, e chamou maluca à tia, em voz baixa. A ternura dos dois foi interrompida por alguém que batia à porta da rua.

 

— Quem é? perguntou o marido.

 

— Sou eu.

 

Era o dono da casa, credor de três meses de aluguel, que vinha em pessoa ameaçar o inquilino. Este quis que ele entrasse.

 

— Não é preciso…

 

— Faça favor.

 

O credor entrou e recusou sentar-se; deitou os olhos à mobília para ver se daria algo à penhora; achou que pouco. Vinha receber os aluguéis vencidos, não podia esperar mais; se dentro de cinco dias não fosse pago, pô-lo-ia na rua. Não havia trabalhado para regalo dos outros. Ao vê-lo, ninguém diria que era proprietário; mas a palavra supria o que faltava ao gesto, e o pobre Cândido Neves preferiu calar a retorquir. Fez uma inclinação de promessa e súplica ao mesmo tempo. O dono da casa não cedeu mais.

 

— Cinco dias ou rua! repetiu, metendo a mão no ferrolho da porta e saindo.

 

Candinho saiu por outro lado. Nesses lances não chegava nunca ao desespero, contava com algum empréstimo, não sabia como nem onde, mas contava. Demais, recorreu aos anúncios. Achou vários, alguns já velhos, mas em vão os buscava desde muito. Gastou algumas horas sem proveito, e tornou para casa. Ao fim de quatro dias, não achou recursos; lançou mão de empenhos, foi a pessoas amigas do proprietário, não alcançando mais que a ordem de mudança.

 

A situação era aguda. Não achavam casa, nem contavam com pessoa que lhes emprestasse alguma; era ir para a rua. Não contavam com a tia. Tia Mônica teve arte de alcançar aposento para os três em casa de uma senhora velha e rica, que lhe prometeu emprestar os quartos baixos da casa, ao fundo da cocheira, para os lados de um pátio. Teve ainda a arte maior de não dizer nada aos dois, para que Cândido Neves, no desespero da crise, começasse por enjeitar o filho e acabasse alcançando algum meio seguro e regular de obter dinheiro; emendar a vida, em suma. Ouvia as queixas de Clara, sem as repetir, é certo, mas sem as consolar. No dia em que fossem obrigados a deixar a casa, fá-los-ia espantar com a notícia do obséquio e iriam dormir melhor do que cuidassem.

 

Assim sucedeu. Postos fora da casa, passaram ao aposento de favor, e dois dias depois nasceu a criança. A alegria do pai foi enorme, e a tristeza também. Tia Mônica insistiu em dar a criança à Roda. “Se você não a quer levar, deixe isso comigo; eu vou à Rua dos Barbonos.” Cândido Neves pediu que não, que esperasse, que ele mesmo a levaria. Notai que era um menino, e que ambos os pais desejavam justamente este sexo. Mal lhe deram algum leite; mas, como chovesse à noite, assentou o pai levá-lo à Roda na noite seguinte.

 

Naquela reviu todas as suas notas de escravos fugidos. As gratificações pela maior parte eram promessas; algumas traziam a soma escrita e escassa. Uma, porém, subia a cem mil-réis. Tratava-se de uma mulata; vinham indicações de gesto e de vestido. Cândido Neves andara a pesquisá-la sem melhor fortuna, e abrira mão do negócio; imaginou que algum amante da escrava a houvesse recolhido. Agora, porém, a vista nova da quantia e a necessidade dela animaram Cândido Neves a fazer um grande esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e indagar pela Rua e Largo da Carioca, Rua do Parto e da Ajuda, onde ela parecia andar, segundo o anúncio. Não a achou; apenas um farmacêutico da Rua da Ajuda se lembrava de ter vendido uma onça de qualquer droga, três dias antes, à pessoa que tinha os sinais indicados. Cândido Neves parecia falar como dono da escrava, e agradeceu cortesmente a notícia. Não foi mais feliz com outros fugidos de gratificação incerta ou barata.

 

Voltou para a triste casa que lhe haviam emprestado. Tia Mônica arranjara de si mesma a dieta para a recente mãe, e tinha já o menino para ser levado à Roda. O pai, não obstante o acordo feito, mal pôde esconder a dor do espetáculo. Não quis comer o que tia Mônica lhe guardara; não tinha fome, disse, e era verdade. Cogitou mil modos de ficar com o filho; nenhum prestava. Não podia esquecer o próprio albergue em que vivia. Consultou a mulher, que se mostrou resignada. Tia Mônica pintara-lhe a criação do menino; seria maior a miséria, podendo suceder que o filho achasse a morte sem recurso. Cândido Neves foi obrigado a cumprir a promessa; pediu à mulher que desse ao filho o resto do leite que ele beberia da mãe. Assim se fez; o pequeno adormeceu, o pai pegou dele, e saiu na direção da Rua dos Barbonos.

 

Que pensasse mais de uma vez em voltar para casa com ele, é certo; não menos certo é que o agasalhava muito, que o beijava, que lhe cobria o rosto para preservá-lo do sereno. Ao entrar na Rua da Guarda Velha, Cândido Neves começou a afrouxar o passo.

 

— Hei de entregá-lo o mais tarde que puder, murmurou ele.

 

Mas não sendo a rua infinita ou sequer longa, viria a acabá-la; foi então que lhe ocorreu entrar por um dos becos que ligavam aquela à Rua da Ajuda. Chegou ao fim do beco e, indo a dobrar à direita, na direção do Largo da Ajuda, viu do lado oposto um vulto de mulher; era a mulata fugida. Não dou aqui a comoção de Cândido Neves por não podê-lo fazer com a intensidade real. Um adjetivo basta; digamos enorme. Descendo a mulher, desceu ele também; a poucos passos estava a farmácia onde obtivera a informação, que referi acima. Entrou, achou o farmacêutico, pediu-lhe a fineza de guardar a criança por um instante; viria buscá-la sem falta.

 

— Mas…

 

Cândido Neves não lhe deu tempo de dizer nada; saiu rápido, atravessou a rua, até ao ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarma. No extremo da rua, quando ela ia a descer a de S. José, Cândido Neves aproximou-se dela. Era a mesma, era a mulata fujona.

 

— Arminda! bradou, conforme a nomeava o anúncio.

 

Arminda voltou-se sem cuidar malícia. Foi só quando ele, tendo tirado o pedaço de corda da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ela compreendeu e quis fugir. Era já impossível. Cândido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume, mas entendeu logo que ninguém viria libertá-la, ao contrário. Pediu então que a soltasse pelo amor de Deus.

 

— Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço!

 

— Siga! repetiu Cândido Neves.

 

— Me solte!

 

— Não quero demoras; siga!

 

Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao filho. Quem passava ou estava à porta de uma loja, compreendia o que era e naturalmente não acudia. Arminda ia alegando que o senhor era muito mau, e provavelmente a castigaria com açoites, — coisa que, no estado em que ela estava, seria pior de sentir. Com certeza, ele lhe mandaria dar açoites.

 

— Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? perguntou Cândido Neves.

 

Não estava em maré de riso, por causa do filho que lá ficara na farmácia, à espera dele. Também é certo que não costumava dizer grandes coisas. Foi arrastando a escrava pela Rua dos Ourives, em direção à da Alfândega, onde residia o senhor. Na esquina desta a luta cresceu; a escrava pôs os pés à parede, recuou com grande esforço, inutilmente. O que alcançou foi, apesar de ser a casa próxima, gastar mais tempo em lá chegar do que devera. Chegou, enfim, arrastada, desesperada, arquejando. Ainda ali ajoelhou-se, mas em vão. O senhor estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor.

 

— Aqui está a fujona, disse Cândido Neves.

 

— É ela mesma.

 

— Meu senhor!

 

— Anda, entra…

 

Arminda caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os cem mil-réis de gratificação. Cândido Neves guardou as duas notas de cinqüenta mil-réis, enquanto o senhor novamente dizia à escrava que entrasse. No chão, onde jazia, levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou.

 

O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono. Cândido Neves viu todo esse espetáculo. Não sabia que horas eram. Quaisquer que fossem, urgia correr à Rua da Ajuda, e foi o que ele fez sem querer conhecer as conseqüências do desastre.

 

Quando lá chegou, viu o farmacêutico sozinho, sem o filho que lhe entregara. Quis esganá-lo. Felizmente, o farmacêutico explicou tudo a tempo; o menino estava lá dentro com a família, e ambos entraram. O pai recebeu o filho com a mesma fúria com que pegara a escrava fujona de há pouco, fúria diversa, naturalmente, fúria de amor. Agradeceu depressa e mal, e saiu às carreiras, não para a Roda dos enjeitados, mas para a casa de empréstimo com o filho e os cem mil-réis de gratificação. Tia Mônica, ouvida a explicação, perdoou a volta do pequeno, uma vez que trazia os cem mil-réis. Disse, é verdade, algumas palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga. Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas, verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto.

 

— Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração.

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CEGO EM TIROTEIO PODCAST #07: Fup, Jim Dodge

 

E o Cego em Tiroteio Podcast dessa quinzena vem carregado com um ar bucólico para falar de um dos menores grandes romances da literatura norte-americana, Fup, de Jim Dodge. E para falar sobre a história, as personagens e patos que não sabem voar e um whisky que concede a imortalidade, Victor Caparica, Arthur Malaspina, Thiago Augusto, Kell Bonassoli e Puncha se reuniram em um dos melhores programas que já gravamos!

 

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Sorteio Branca Dos Mortos e o Sete Zumbis: O sorteio foi realizado e pode ser conferido neste vídeo. O vencedor foi Diego Oliveira. Parabéns e entre em contato conosco pela nossa fanpage para receber seu prêmio.

 

Para participar do sorteio do livro dessa edição, clique no  link http://yesganhei.com/sorteios/13653

 

Livros comentados nessa edição:

 

Fup, de Jim Dodge (José Olympio)
O Enígma da Pedra, de Jim Dodge (José Olympio)
O Enígma da Pedra, de Jim Dodge – em inglês (Publisher Group West)
Ensaios, de T.S. Elliot (Art Editora)
Pergunte ao Pó, John Fante (José Olympio)
Pergunte ao Pó / Espere a Primavera, Bandini (Best Bolso)
Ratos e Homens, John Steinback (L&PM Editores)
Guerra Dos Tronos - As Crônicas de Gelo e Fogo – Vol. 1, de George R. R. Martin (Editora Leya)
A Espera de Um Milagre, Stephen King (Editora Objetiva)

 

E mais:

Forrest Gump – O Contador de Histórias (Paramount Pictures)
Bravura Indômita (Paramount Pictures) 

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CEGO EM TIROTEIO PODCAST #06: A Confissão, Abu Fobiya

E a sexta edição do Cego em Tiroteio Podcast vem possuída pelas trevas para falar do conto “A Confissão”, do livro de histórias de terror “Branca dos Mortos e os Sete Zumbis”, obra de estréia do sombrio e misterioso Abu Fobiya.

 

E para falar dessa obra, Victor Caparica, Arthur Malaspina, Thiago Augusto e Kell Bonassoli se reuniram com ninguém menos que Fábio Yabu, que nos falou sobre a concepção do livro, o trabalho com as referências bibliográficas, os últimos e próximos projetos e sua personalidade macabra nascida com o sacrifício de uma galinha inocente!

 

O conto, como de praxe, você lê na íntegra aqui no blog, e o livro inteiro, para quem não se contentar só com um pouco de terror, está sendo sorteado agorinha mesmo lá na nossa página do Facebook, então não perca mais tempo! Abaixo você encontra os links citados no programa, agora finalmente com o sistema de parceria efetivado com a Saraiva.

 

Para ler o conto: A Confissão, Abu Fobiya

 

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Livros comentados nessa edição:
A Última Princesa, de Fábio Yabu (Galera Record)

As Coisas Vistas de Cima, de Fábio Yabu e Olivia Muniz (Publifolha)

Apolinário, O Homem Dicionario, de Fábio Yabu (Panda Books)

Princesas do Mar, edição com oito livros mais Cd – Rom, de Fabio Yabu (Ciranda Virtual)

Raimundo, Cidadão do Mundo, de Fabio Yabu (Panda Books)

Branca dos Mortos e os Sete Zumbis e outros contos macabros, de Abu Fobiya (Nerdbooks)

Os Pilares da Terra, Ken Follett – Volume Único (Rocco)

 

E mais:

Nerdcast 105 – Fábio Yabu, O Homem Que Matou o Jovem Nerd

YabloG! – Blog de Fábio Yabu

Como Desenhar Uma Coruja

 

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A Confissão – Abu Fobiya

Tempo, dinheiro e prestígio eram coisas que aquele velho tinha em abundância. Graças a seus feitos, era respeitado por todo o reino, da família real aos mais humildes lenhadores. Durante os longos meses de inverno que massacraram aquela terra, sua casa era uma das únicas a receber queijos, frutos e aves frescas enviadas pelo governo. Qualquer coisa que quisesse obter ali, desde um simples pedaço de pão às terras do próprio rei, já se via quitada pela gratidão que todos lhe deviam.

 

Mesmo sendo tão afortunado, o velho se sentia ainda mais vazio do que nos tempos de pobreza e mais miserável do que os vendedores de fósforos que morriam de frio pelas ruas. Pois, desde que perdera o único filho, sua vida se transformara numa tediosa espera por notícias que jamais chegavam, ou pelo fim, o que viesse primeiro.

 

Quis o destino enviá-los em comitiva.

 

O velho ouviu batidas vindas do andar térreo. Pegou sua antiga lamparina para iluminar o caminho, desceu e abriu a porta para o xerife, que disse sem cerimônia:

 

“Senhor… creio que o encontramos!”

 

O maltratado coração do velho disparou. Ele arrumou os óculos no rosto, franziu a testa e perguntou:

 

“Como sabeis que é ele?”

 

“Fizemos o que mandaste. Apenas seguimos a trilha de sangue, até encontrarmos uma pobre viúva, cujo marido fora assassinado. A partir do relato da desamparada mulher, pudemos encontrar o suspeito, e ele se entregou sem a menor resistência. Contudo…”

 

“Contudo o quê?”

 

“…há algo que não encaixa na história. Pois, além deste crime horrendo, ele ainda confessou outro, sem sequer ter sido questionado. Simplesmente desatou a falar, de maneira sádica, satisfeita, até prazerosa. Certamente te lembras da pobre menina dos cachinhos dourados…”

 

“Claro”, respondeu o velho, lamentando-se. “A pobrezinha que foi devorada por ursos!”

 

“Pois bem, segundo o… hã, suspeito, não se tratou de um simples acidente, mas de uma ação premeditada!”

 

O velho, que amava crianças, tirou os óculos e esfregou os olhos.

 

“Céus!”

 

“Infelizmente, meu relato não acaba aqui. O suspeito afirma ainda estar ligado a diversos outros crimes, especialmente fraudes, como a dos sete gigantes supostamente assassinados. Mas, em todos meus anos de polícia, acho difícil crer que um único ser humano, que tem no máximo 19 ou 20 anos, tenha sido capaz de acumular tamanho currículo de perversidades, por mais endemoniado que seja!”

 

“Tu não o conheces, caro xerife! Não sabes o que ele fez comigo nem do que é capaz!”, disse o velho, pegando seu casaco e seu chapéu. “Vamos até lá, tenho contas a ajustar!”

 

O xerife levou o velho até o calabouço, onde os piores tipos encontrados no reino eram aprisionados. Assassinos, charlatões e adoradores do diabo dividiam seus claustros com baratas, ratazanas e sócios corruptos, aguardando a execução em praça pública que tanto apetecia os cidadãos.

 

Cada passo por aqueles corredores abafados e úmidos era uma tortura para o velho. Mas sem sombra de dúvida ele preferia ficar preso ali a encarar o que veria a seguir. Dentro de um claustro, amarrado a uma cadeira estava um rapaz magro, de tez morena como um pinheiro, olhos azuis e cabelos lisos e negros, encharcados pelo suor que lhe caía sobre os olhos.

 

“Eu assumo daqui, xerife. Vai descansar”, ordenou o velho.

 

“Por favor, lembra-te do nosso acordo!”, pediu o xerife, tirando do bolso um enorme molho de chaves. Abriu as grades do claustro e o velho entrou, acompanhado por dois guardas. Virou-se e fez sinal para que saíssem também. Eles olharam para o chefe em busca de aprovação, e deixaram o ancião a sós com o suspeito.

 

Olhou para o rapaz amarrado diante de si. Durante vários minutos, as goteiras e a respiração eram os únicos sons que se ouvia. As lembranças dos dias felizes ao lado do filho inundaram sua mente, mas ele conteve as lágrimas, prendendo a respiração. Esfregando a mão na testa, disse:

 

“O que houve com meu filho?”

 

Nenhuma resposta.

 

A cada palavra, o velho elevava o tom de voz:

 

“O que houve com meu filho!?”

 

Nada.

 

O velho percebeu que era inútil gritar.

 

“Que diabos estás tentando fazer?”

 

O rapaz jogou a cabeça para trás, mas estava apenas tentando tirar a franja molhada de suor da frente dos olhos. Tornou a baixar o queixo.

 

“Tu não vais escapar desta vez. Finalmente vais responder por todas tuas fraudes e crimes.”

 

Silêncio.

 

“O pobre gigante. Ele era meu amigo. E tu subiste num pé de feijão até a casa dele, só para matá-lo?”

 

O rapaz jogou a cabeça para trás, encarou o velho e finalmente disse:

 

“Sim! Mas, antes disso, resolvi roubar todo o ouro que o desgraçado possuía!”. Ele mal cabia em si. “Depois roubei sua galinha que botava os ovos de ouro. Preciso dizer o que eu fiz com ela?”

 

“Maldito, a galinha era um presente dos céus para os homens, que poderia pôr fim à fome que há anos assola nosso reino! O que tua mente deturpada fez? Tu a abriste querendo os ovos?”

 

“Abrir? Mas é claro que não! Desde quando me importo com ouro? Primeiro, eu quebrei-lhe o pescoço, e deleitei-me ao vê-la girar desesperadamete no chão ao redor do próprio eixo. Depois, enfiei-a num buraco e, em seguida, ateei fogo, ha ha ha!”

 

“Ateou fogo? Que espécie de ser humano és tu?”

 

“Oras, tu bem sabes a resposta para essa pergunta!”

 

A fúria do velho estava prestes a transbordar. Ele sentia seu coração palpitando, o braço formigando, sabia que um infarto se aproximava, mas, no fundo de seu ser, ele não se importava mais. Viver ou morrer naquela noite era indiferente.

 

“E a menina dos cachinhos dourados? Também foste tu?”

 

“Não. Ao menos, não exatamente. Quem matou a intrometida foram os ursos. Eu apenas disse a ela o que encontraria na casa: três pratos de mingau, três cadeiras, três camas e ninguém para importuná-la. Quando a pirralha entrou, eu só alertei os ursos que ela estava lá, ha, ha, ha!”

 

“E a amiga dela?”

 

“Ah, a do capuz vermelho? Menininha irritante. Não me admira que o pai dela tenha deixado-a sozinha na floresta!”

 

“O que fizeste com ela?”

 

“Eu? Eu não fiz nada. Mas nada posso dizer pelo lobo que seguiu minha dica, ha, ha, ha!”

 

“Miserável, como podes rir de uma situação dessas? Será possível que não tens coração!?”

 

“Ha, ha, ha”, gargalhou o rapaz, histericamente. “Logo TU vens me perguntar isso?”

 

Mais do que a confissão dos crimes, aquelas palavras fizeram o velho finalmente perder o controle. Cerrou o punho direito e desferiu um golpe no rosto do suspeito, que urrou cuspindo sangue e dentes.

 

Do corredor, os guardas se prepararam para entrar, mas foram impedidos pelo xerife.
“Isso é entre eles!”, censurou.

 

O velho desferiu outro golpe, depois mais outro e mais outro, até se tornarem incontáveis como as lágrimas que finalmente se libertaram e desceram furiosamente por seu rosto.

 

“Tu querias chamar minha atenção?”

 

“Na verdade, sim, eu quer…”

 

“Pois conseguiste! Conseguiste! Miserável! Maníaco! Assassino!”, berrou o velho, massacrando o rapaz.

 

Por mais que o esmurrasse repetidamente, o velho sentia como se estivesse num sonho, e nenhum dos socos saía com a força que refletia seu perturbado estado de espírito. E, pior, nada era capaz de tirar o sorriso cínico do suspeito, que o mantinha mesmo depois de perder os dentes da frente.

 

Sem se importar com o que fora acordado com o xerife, de que não mataria o suspeito, o velho agarrou-o pelas cordas e empurrou com tudo para o lado, em cima de uma poça. Em seguida, chutou-lhe o estômago e o viu agonizar em busca de oxigênio enquanto a água suja espirrava em sua boca.

 

“Desgraçado! Por que fazes isso? Por quê? POR QUÊ?!”

 

Então, o suspeito disse as palavras que ecoariam na mente do velho até sua morte:

 

“PORQUE EU TE ODEIO!”

 

Tão logo ele as pronunciou, seu sorriso cínico desapareceu e ele desabou a chorar. As lágrimas que escorriam de seus olhos azuis não eram de remorso, pois isso era algo que não sentia desde o dia em que perdera o grilo de sua consciência. Eram lágrimas de derrota, envergonhadas pelo nariz que crescia em seu rosto e já atingia quase um palmo. Dentre tantas confissões horripilantes e verdadeiras, ele contou a única mentira daquela noite, a maior mentira que um filho poderia contar ao pai.

 

O velho Gepeto deixou o claustro, consternado. Agradeceu ao xerife e pediu que se assegurasse de que o suspeito jamais deixaria aquele local.

 

Voltou a sua oficina. Foi encontrado morto no dia seguinte.

 

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Conto cedido pra publicação pela Nerdbooks, compre o livro Branca dos Mortos e Os 7 Zumbis na Nerdstore.

 

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CEGO EM TIROTEIO PODCAST #05: A Casa Dos Budas Ditosos, João Ubaldo Ribeiro


E a quinta edição do Cego em Tiroteio Podcast vem cheia de amor para distribuir, hoje falando do romance de literatura porno-erótica A Casa dos Budas Ditosos, do imortal brasileiro João Ubaldo Ribeiro. Victor Caparica, Arthur Malaspina, Leandro Durazzo, Thiago Augusto, Kell Bonassoli e Puncha se reuniram sem um pingo de pudor ou comedimento para falar de uma obra inteiramente dedicada à Luxúria, nosso pecado favorito, e conversam sobre sexo, sexualidade, tabus sexuais, hábitos sexuais e eventualmente sobre teoria literária para distingüir erotismo de pornografia. E, caso ainda não tenha ficado óbvio, recomendamos que pessoas sensíveis a linguagem vulgar poupem sua integridade moral e não ouçam este programa, prometemos que a partir da próxima quinzena voltamos a falar de textos mais civilizados.

Se você quiser nos escrever para dar sugestões, críticas, complementar ou corrigir qualquer asneira ou simplesmente esfregar na nossa cara como somos libertinos, sujos e imorais, nosso endereço é cegoemtiroteio@cegoemtiroteio.com e além disso você também pode deixar seu comentário na postagem. Como de costume, no fim do programa você fica sabendo qual a próxima obra abordada, e sugerimos que fiquem espertos no blog, pois nos próximos dias haverá pelo menos uma novidade muito legal para nossos ouvintes!

 

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Fanpage: http://www.facebook.com/CegoEmTiroteio

 

Livros comentados neste episódio:

Coleção Plenos Pecados (Objetiva)

A Casa dos Budas Ditosos, João Ubaldo Ribeiro (Objetiva)

A Casa dos Budas Ditosos (versão e-book)

O Feitiço da Ilha do Pavão, João Ubaldo Ribeiro (Alfaguara)

O Feitiço da Ilha do Pavão (versão e-book)

Adeus às Armas, Ernest Hemingway (Bertrand Brasil)

Adeus às Armas (filme)

Eles Eram Muitos Cavalos, Luiz Ruffato (Record)

As 100 Melhores Histórias Eróticas da Literatura Universal, Org. Flávio Moreira da Costa (Editora Agir)

O Uivo, Allan Ginsberg (L&PM Editores)

Lolita, Vladmir Nabokov (Alfaguara)

Escarafunchando Fritz – Dentro e Fora da Lata de Lixo, Frederick S. Perls (Summus Editorial)

Poesia Erótica em Tradução, de José Paulo Paes (Companhia das Letras)

Cântico dos Cânticos, Salomão (Hedra)

Teresa Filósofa, anônimo (L&PM Editores)

Fanny Hill ou Memórias de uma Mulher de Prazer, John Cleland (L&PM Editores)

Cinquenta Tons de Cinza, E. L. James (Intrínseca)

Cinquenta Tons de Cinza (versão e-book)

A História de O, Pauline Réage (Editora Objetiva)

 

E mais:

“Os Budas Ditosos” no teatro

Curta metragem inspirado na obra 

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CEGO EM TIROTEIO PODCAST #04: O Imortal, Jorge Luis Borges

E, com o tradicional atraso de um dia, chega o quarto episódio do Cego em Tiroteio Podcast, nessa quinzena falando do conto O Imortal, do consagrado autor argentino Jorge Luiz Borges. Bem mais do que os anteriores, essa edição rendeu um trabalhão para fazer caber tanto assunto em menos de quarenta minutos, mas o resultado, como podem ouvir, ficou muito legal. Victor Caparica, Arthur Malaspina, Leandro Durazzo, Thiago Augusto, Kell Bonassoli e Puncha estão de volta, e conversam sobre a biografia do autor, seu estilo incrivelmente único e seus acessos narrativos de erudição, tudo isso enquanto se perdem em uma discussão filosófica sobre as benesses e vicissitudes da imortalidade.

 

Lembrando que se você não leu o conto, pode lê-lo aqui no blog que, com a autorização da Companhia das Letras, publicou na íntegra.

 

O Imortal, Jorge Luis Borges (Conto)

 

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Livros comentados nessa edição:

 

O Aleph, Jorge Luis Borges (Companhia das Letras)

Ficções, Jorge Luis Borges (Companhia das Letras)

Esse Ofício de Verso, Jorge Luis Borges (Companhia das Letras)

Visão do Paraíso: Os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda (Companhia das Letras)

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O Imortal, de Jorge Luis Borges

Solomon saith: “There is no new thing upon the

earth”. So that as Plato had an imagination,
“that all knowledge was but remembrance”; so
Solomon giveth his sentence, “that all novelty is
but oblivion”.
FRANCIS BACON: Essays LVIII.

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Em Londres, no início do mês de junho de 1929, o antiquário Joseph Cartaphilus, de Esmirna, ofereceu à princesa de Lucinge os seis volumes in quarto menor (1715-20) da Ilíada de Pope. A princesa adquiriu-os; ao recebê-los, trocou algumas palavras com ele. Era, nos diz, um homem acabado e terroso, de olhos cinza e barba cinza, de traços singularmente vagos. Manejava com fluidez e ignorância várias línguas; em pouquíssimos minutos passou do francês ao inglês e do inglês a uma conjunção enigmática de espanhol de Salonica com português de Macau. Em outubro, a princesa ouviu de um passageiro do Zeus que Cartaphilus tinha morrido no mar, ao regressar de Esmirna, e que o haviam enterrado na ilha de Ios. No último tomo da Iliada, ela encontrou este manuscrito.

O original está redigido em inglês e é pródigo em latinismo. A versão que oferecemos é literal.

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I

Que eu me lembre, minhas provações começaram num jardim de Tebas Hecatômpilos, quando Diocleciano era imperador. Eu tinha militado (sem glória) nas recentes guerras egípcias, como tribuno de uma legião que esteve aquartelada em Berenice, defronte do mar Vermelho: a febre e a magia consumiram muitos homens que, magnânimos, Continue reading →

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CEGO EM TIROTEIO PODCAST #03 – O Jogo do Exterminador, Orson Scott Card

E a terceira edição do Cego em Tiroteio Podcast chega ao ar, dessa vez trazendo um dos mais aclamados títulos da ficção científica! O leitor mais antigo lembrará que lá atrás publiquei uma resenha dessa obra, mas o texto é tão bom que Arthur Malaspina, Leandro Durazzo, Thiago Augusto e este cego em tiroteio que vos fala decidiram que merecia uma horinha de papo. Falamos sobre o enredo, o autor, seu contexto histórico e suas traduções brasileiras, e não pudemos nos furtar também a especular um pouco sobre a adaptação cinematográfica que, esperamos, deve sair já no ano que vem! Abaixo, você encontra alguns links mencionados no programa, além dos links para download.

Para assinar nosso feed: http://cegoemtiroteio.com/?feed=cegoemtiroteio 

 

Livros comentados nessa edição:

O Jogo do Exterminador, Orson Scott Card (Devir)
Orador Dos Mortos, Orson Scott Card (Tor Books)
Ender In Exile, Orson Scott Card (Tor Books)
Capa das edições brasileiras de O Jogo do Exterminador 

 

E mais:
Entrevista com Carlos Angelo, tradutor de O Jogo do Exterminador (Terra Magazine)
Blog do filme O Jogo do Exterminador
Atores e seus respectivos personagens em O Jogo do Exterminador 

 

ERRATA: Na gravação desse podcast a página do site O Livreiro constava alguns livros que Carlos Angelo não traduziu. Aparentemente, o site fez uma confusão entre o primeiro  e segundo tradutor de O Jogo do Exterminador. Pedimos desculpa pela pesquisa com referência errada e evitaremos utilizar o site futuramente para não ocorrer outras desinformações.

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CEGO EM TIROTEIO PODCAST #02: O Desempenho, Rubem Fonseca

E, com um atraso de dois dias causado pela pane geral em meu notebook, eis que vai ao ar a segunda edição do Cego em Tiroteio Podcast, seu podcast de crítica literária que, a partir de agora, passa a ser quinzenal, e não mais mensal! Sim, o Thiago Augusto teve a idéia, todo mundo adorou, e sobrou para o cego aqui editar dois programas por mês, que passam a se alternar entre um episódio ímpar sobre um livro e outro par sobre um conto, e para começar já caímos na porrada com um conto do aclamadíssimo autor brasileiro Rubem Fonseca!

 

Neste episódio, Victor Caparica, Arthur Malaspina, Leandro Durazzo e Thiago Augusto recebem pela primeira de muitas vezes os convidados Kell Bonassoli e Puncha para falar do conto “O Desempenho” (do livro Lucia McCartney), que coloca o leitor bem no meio de um ringue de Vale-Tudo debaixo de muita porrada, muito palavrão e muito sangue, do jeito que o Rubem Fonseca gosta. Então baixe o podcast, ouça, deixe seu comentário aqui e, por favor, acredite quando digo que o assunto ter sido publicado bem na véspera da defesa de título do Anderson Silva contra o Chael Sonnen pela UFC é a mais pura e mera coincidência, nem nós seríamos tão oportunistas. Finalmente, a partir desse programa, achamos de bom alvitre deixar o ouvinte informado sobre qual será o livro ou conto abordado no próximo programa, então faça seu dever de casa e chegue também de leitura feita.

 

Para assinar nosso feed: http://cegoemtiroteio.com/?feed=cegoemtiroteio 

 

Livros comentados nessa edição:

Lucia McCartney, Rubem Fonseca (Editora AGIR) Lucia McCartney ( versão e-book)
Capas das edições de Lucia McCartney desde seu lançamento
Pega Ele, Silêncio de Ignácio de Loyola Brandão (Editora Global)

E mais:
Retina 78, a capista da coleção Rubem Fonseca da AGIR

 

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Cotidiano Cego #02 – Dando Aula

Bom dia. Dou aulas desde os 14 anos, quando a escola de informática onde estudava me convidou para um estágio sem remuneração estilo sarampo (ou seja, que a gente só pega mesmo quando é muito jovem), e desde então percebi que tinha uma certa naturalidade para ensinar pessoas a fazerem as coisas que eu sabia fazer. Chamem de vocação se quiserem, eu chamo afinidade, até porque sofro de um impulso alimentado por ego que faz com que eu goste de pensar que, se tenho uma vocação natural, é para escrever e não para lecionar, o que agora pensando um pouco me parece ser uma e a mesma coisa. Deixemos meu ego, porém, ali no cantinho, que de lá ele já me dá suficiente trabalho, e vamos falar um pouco sobre o trabalho de dar aulas no escuro.

Amo o que faço. Sério mesmo. Até nos dias ruins. Até nos péssimos, gosto muito de dar aulas. Primeiro, certamente, porque é um emprego onde posso simplesmente dar vazão despreocupada à minha tendência característica de Continue reading →

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